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A grande festa

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Por mais de seis meses o pátio ficou fechado e a gente não podia brincar nem tomar sol. Ninguém sabia porquê. Uma vez na semana, dona Odete saia com grupos de dez crianças para passear na praça da cidade, mas brincar não podia.

“Não corre, moleque! Arruma esse cabelo, menina! Cuidado com a senhora, pelo-amor-de-deus! Vocês são órfãos, não são animais!” Era um maltrato atrás do outro e então, um dia, começou o alvoroço para a inauguração do pátio.

“Vai ter uma fonte”, eles disseram. E era gente bonita e cheirosa passando pra cima e pra baixo o dia todo. Veio até o prefeito da cidade com a esposa. A gente teve que ficar quietinho no quarto, só deixaram a molecada ver a tal fonte já de noitinha, quando todo mundo já tinha ido embora e a festa já tinha acabado.

 

publicado originalmente em URL: http://tmblr.co/ZKdS5y215OB7_

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Saudade

Hoje o dia está nublado aqui, a saudade de ti me abateu por inteiro.

Há muito tempo que não te vejo e hoje achei essa fotografia. Não lembro quando foi tirada, as memórias ainda estão confusas e dançam como nós dançamos no dia deste registro.

Queria ter visto você crescer, brincar, sorrir, estudar, virar uma mulher, desabrochar para a vida. Queria ter te mostrado o quanto te amo, ter cuidado de você, te acompanhado pela vida, mesmo sabendo que você cresceria e um dia me deixaria.

Mas eu, eu que fui embora, não por querer, mas porque as coisas são assim.
Dizem que um dia vamos nos encontrar novamente e fico pensando se te reconhecerei. Será que você estará como quando nos vimos pela ultima vez ou será já uma mulher adulta? Você lembrará de mim? Não sei se aqui o tempo passa como quando eu estava vivo, mas o meu amor permanece o mesmo, tenha certeza, minha filha.am1

publicado originalmente em URL: http://tmblr.co/ZKdS5y1ydevaW

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Reinvidicação

Senhora, a minha vaidade me impede de ir ao mercado fazer as tuas compras vestida de qualquer jeito. Eu gosto de estar bem arrumada quando estou na rua e por isso me aprumo. Sou viuva há pouco tempo e embora não deseje um novo enrosco na minha vida, gosto de ser paquerada e me sinto bem com a minha liberdade. Não me peça para usar minhas roupas boas para limpar sua casa, estando assim mais apresentável aos seus olhos. Esse aventalzinho não resolve o seu nem o meu problema, me arrume um uniforme adequado, por favor!

(publicado originalmente no http://arquivodememorias.tumblr.com)tumblr_inline_nv8lkqIv1o1qdyvhz_500

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Vida Moderna, uma estorinha escrita em 2005 em pequenas partes.

Vida Moderna / parte I Jan 11, ’05 9:03 AMfor everyone

Therezo, Elzo e Carolino nasceram e cresceram na mesma vizinhança. Na mesma Vila Nhocuné, fizeram o prézinho, primário e ginásio juntos, embora Elzo tenha morado um curto período em Francisco Morato, com os avós, por causa de seu problema com os lingeries de sua mãe: ele usava todos.

Cresceram como crianças saudáveis, tendo os problemas que todas as crianças saudáveis têm, suas brincadeiras, suas traquinagens, a acabaram por descobrir sua sexualidade juntos.

O problema de Elzo com as lingeries apareceu cedo. Não era um problema em si, era uma diferença crucial de tamanho. Aos 11 anos Elzo já pesava 83 quilos e sua mãe era uma gata atraente de manequim 36. Isso fez com que a tara de Elzo tomasse proporções aterradoras, uma vez que Dona Mãe de Elzo perdia todas as sua peças íntimas e resolveu mandá-lo para a casa dos avós. Lá ele poderia encontrar facilmente calcinhas e sutiãs tam 48, 50, e 54 da avó e das tias solteironas e robustas.

Therezo não gostava das lingeries mas respeitava o amigo. Adorava vê-lo dançando Luan & Vanessa e suas semanas de amor. Não tinha maldade, achava belo e poético ver Elzo se arrastando no chão de ligas vermelhas enquanto Carolino balançava um lençol por cima dele fazendo movimentos ondulares. Porém foi Therezo o primeiro a desconfiar que aquela brincadeira infantil poderia se tornar um problema. As ligas estouraram. O corpete esgarçou. Voaram colchetes que foram bater nas paredes e no guarda-roupas como tiros de chumbinho. E, enquanto Carolino e Elzo gargalhavam do incidente, uma preocupação tomou Therezo em cheio: “a Dona Mãe de Elzo não ia gostar nada…”

Vida Moderna / Parte II Jan 11, ’05 12:12 PMfor everyone

Dona Mãe do Elzo dispensou duas empregadas por causa de suas roupas íntimas estragadas. Até que se deu conta que estava errada. “Será que é meu filho? Será que ele é como o pai? Imagina o nó que vai dar na cabeça desse menino se descobrir que o pai gosta de ser chamado de ‘minha Ricarda’? Será que ele já achou nossa caixa de brinquedos? Melhor passar um tempo com mamãe. Ela vai saber o que fazer.” E lá se foi Elzo pra Francisco Morato…

Carolino era o mais arruaceiro da classe. Sua maior diversão era puxar as cuecas dos meninos e também as calcinhas das garotas. Até Dona Shirley, sua professora, uma vez levou um ‘fio terra’. A classe ria alucinadamente. Dona Shirley, roxa de vergonha com sua calcinha vermelho “Marisa” toda esgarçada saindo pra fora do jeans, urrava de ódio. O episódio rendeu uma suspensão a Carolino. Ele alegou aos pais que fazia isso por saudades de Elzo. Os pais compreenderam, sabiam que o amigo do filho era diferente e o aceitavam assim, mesmo fora de seus padrões conservadores. Sabiam que o mundo havia mudado muito nos últimos anos e achavam que tanto mais tolerantes fossem, melhor seria para todos.

Thiaga era uma garota loirinha de olhos claros que estudava na mesma classe de Carolino. Ela o admirava secretamente. Ficava com estranhas ondas de arrepios prazerosos cada vez que o amiguinho aprontava das suas. Não entendia o porquê daquela sensação. Resolveu escrever para ele.

Vida Moderna / Parte III Jan 12, ’05 12:52 PMfor everyone

Therezo estava deprê e saiu para dar uma volta na pracinha. Encontrou Carolino com Thiaga num namorico de jardim sem-vergonha. Os dois descabelados e amassados e Therezo sentiu mais uma pedrinha entrar na sua alma.
– Ô Therezão! Vem cá!! Conhece a Thiaga?
– Oi! (quem é essa cafona?)

Elzo estava arrumando suas coisas para voltar á a Vila. Como tinha sido divertido esse tempo com os avós e as tias! Estava tão leve… Tinha uma saudade imensa dos amigos e queria revê-los em breve. Se sentia mais maduro, tinha muitas coisas para contar . Queria falar para eles como a tia Alzira era descolada e moderna. Levou Elzo pra conhecer boates modernas, a Capetu’s e a Socomo’n’Gangorra. Tia Alzira era conhecida na noite como Alzira Tsunami. Era ela que recebia os frequentadores da Socomo. Ela era grande e sua simpatia idem. Comprou roupas novas para ele e de grife! Calças da Fictif e da CofCof, camisetas Cinco Dedos, óculos da Ceguetta… enfim, tia Alzira deixou ele bem hypado.

Naquele final de semana, todos se reencontraram no aniversário de Therezo. Elzo foi a sensação da festa. Parecia Marilyn Manson, todo de vinil preto, com chifres nos ombros e cabelos vermelhos. Therezo se deprimiu ainda mais, não pelo fato de Elzo ter roubado sua festa, mas pelo namoro oficializado de Carolino com Thiaga. Ele percebeu que amava Carolino. Quando Elzo colocou o cd do Placebo, Therezo chorou…

Vida Moderna / Parte IV Jan 13, ’05 8:55 AMfor everyone

Carolino conheceu Oswalda na festa de Therezo onde tinha oficializado seu namoro com Thiaga. Oswalda tinha rosas tatuadas no flanco. Era uma morena sorridente e extrovertida. Era mais velha e fazia Desenho Industrial. Carolino ficou fascinado. Thiaga sentiu ciúmes no começo, mas Oswalda era sua amiga há anos e ela deixou pra lá. Passaram a ser vistos sempre juntos: Carolino, Thiaga e Oswalda.

Therezo e Elzo fizeram suas primeiras incursões pelo mundo da música. Therezo colocava suas angústias e tristeza nas letras que fazia junto com o amigo. Pode-se dizer que a música foi seu consolo. Elzo aprendeu a tocar guitarra e montaram uma banda chamada Star Trashers. Therezo fazia as programações e Elzo, além da guitarra, cantava. Nessa época, saíram da casa dos pais e foram morar no centro, junto com a Tia Alzira, que havia se mudado recentemente.

– Na Socomo? perguntou Thiaga.
– Gangorra, baiana. Os modernos falam “Gangorra” – respondeu Elzo.
– É claro que a gente vai.

E assim os StarTrashers fizeram sua primeira apresentação. Casa lotada e todos os amigos presentes. As músicas eram boas e as letras idem. Elzo usou um macacão esmeralda justíssimo com cabelo e make em tons rosados e Therezo de terno preto, sóbrio. Foi sucesso.Tia Alzira Tsunami não cabia em si de orgulho do sobrinho. Na verdade, estavam todos felizes por eles. Depois da apresentação, Therezo ficou com Oswalda.

Vida Moderna / Parte V Jan 13, ’05 4:53 PMfor everyone

Carolino foi convocado para servir o exército. Isso fez bem a ele pois andava meio sem rumo. Lá descobriu sua vocação para servir a Pátria. Descobriu também, apesar de suas experiências anteriores com Elzo e Therezo, que gostava realmente de garotos. Ou seria melhor dizer “assumiu”? Adorava o apelido que ganho dos amigos: Maria Batalhão. Para Thiaga foi um baque, visto que a moça era profundamente apaixonada por ele. Carolino estava sempre com a farda impecável, cabelos aparados bem reco, sorridente e prestativo. Nem parecia o mesmo moleque traquina de anos atrás. Ele afinal, havia se encontrado. Passou a namorar sério com o sargento de seu regimento. Apesar de bem conveniente, ele gostava muito do sgto. Duran. Estava feliz.

Therezo se casou com Oswalda em maio do mesmo ano. Tinham muito em comum, como a música da Legião Urbana. Já tinham passardo a viver juntos um ano antes. Infelizmente Therezo teve de deixar de lado os StarTrashers, pois entrou na faculdade e esta lhe tomava todo tempo. Em alguns anos estaria formado em Física. A falta de tempo e companhia de Oswalda o impediam de pensar na vida.

Gabi: O entrevistado desta noite é nada menos que Elzo Pereira da Silva, ou simplesmente Elzo. Líder da banda StarTrashers, fenômeno musical inovador que já recebeu três discos de ouro este ano. Elzo, benvindo! Fale do terremoto StarTrashers…
Elzo: Oi, boa noite, Gabi! Bem… ehr, foi tudo tão rápido…
(…)
Gabi: E a banda? Vocês estão juntos desde o início?
Elzo: Não. Na verdade os primeiros Trashers éramos eu e Therezo, um amigo de infância. Começamos em…
(…)
Gabi: Você namora a supermodel Crystalina. São o alvo preferido dos paparazzos, sempre manchete em programas e revistas de fofocas… como lida com isso?
Elzo: Gabi, estou cagando e andando…

Na mesma noite da entrevista, Thiaga dava entrada na U.T.I. com overdose de heroína.

Vida Moderna / Parte VI Jan 14, ’05 1:18 PMfor everyone

Therezo e Oswalda haviam voltado de Londres depois de uma temporada de 6 meses. Oswalda estava grávida e queria ter o filho no Brasil. Estavam elétricos com a chegada do mais novo membro da família. Therezo conseguiu transferência da empresa onde trabalha em Londres para São Paulo e estavam de casa nova, carro e cachorro novos.

Thiaga saiu do hospital psiquiátrico disposta a começar vida nova. Depois de quase ter morrido, havia encontrado alegria em viver fazendo hidro-axé. Sabia que aos poucos ia conseguir se estruturar. Estava disposta e calma. Montou um ateliê para fazer tapetes arraiolos na Vila Madalena.

Carolino e o Sgto. Duran foram expulsos das forças armadas numa cerimônia humilhante, onde tiveram que despir suas fardas perante o regimento inteiro. Isso aconteceu graças a uma música lançada pelos Trashers que contava o caso de amor dos dois oficiais. A imprensa marron foi atrás e descobriu de quem se tratava. Não tinham recentimento nenhum com Elzo. Montaram um restaurante indonésio na Vila Madalena.

Tia Alzira Tsunami também montou uma boate moderna na …. Vila Madalena! A “Polímero” era o novo point descolado do momento. Os Trashers davam canja lá de vez em quando. Tia Alzira havia rejuvenescido no último ano graças ao hidro-axé, que praticava com Thiaga. Viraram amigas inseparáveis.

Tudo parecia ir bem com todos até a festa de lançamento do novo disco dos Trashers. Mas essa estória é para o próximo capítulo…

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A festa de lançamento do ábum novo do Star Trashers foi incrível!
Você não foi? Que pena! Perdeu. Foi a melhor do ano!

………….Fim

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Notas:
Esta estorinha começou em conversas com o Lísias e o Thiago via Mesenger. Eles me intimaram a escrever. Os nomes foram inspirados nas personagens de um conto do Glauco de 1980 e bolinhas, não lembro do nome mas achei divertidísimo trocar o gênero. A príncipio a estória iria ter 10 capítulos, mas como as personagens foram criando outros rumos, resolvi brecar para poder continuar no comando do texto. A gente procura sempre fazer isso na vida, limitando situações que podem sair do controle. De qualquer forma ficam as várias metáforas e interpretações nas entrelinhas.

Qualquer relação ou semelhança com pessoas e fatos reais pode ou não ser coincidência, mas não têm a intenção de ferir, criticar ou atacar comportamentos nem indivíduos.

Quem sabe um dia eles voltam, mas agora precisam tomar aquele velho navio.

E a modernidade pairou sobre nós…

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Borboleta

borboleta

Com o coração disparado e as pernas tremendo, Josias estava entorpecido pela emoção que vivenciava mesmo sabendo que seria punido. Todos em casa o maltratavam e há algum tempo ele vinha se rendendo à ideia de se libertar e fugir dali. O pai sempre o espancava por causa do seu jeito delicado e a mãe não saía da igreja e só o fazia pedir perdão a Deus por suas atitudes. Um dia roubou o batom da irmã e como ela não deu pela falta do cosmético, ele se divertia quando estava só e pintava-se prazerosamente. Então foi ficando mais corajoso e sabia que havia passado dos limites quando sorrateiramente subtraiu um aplique do salão onde sua tia trabalhava, ao lado de sua casa. Não era um aplique louro como ele sonhava, mas servia. E se o pai descobrisse, sim, ele fugiria de casa. Apanharia, mas poderia ser linda agora, ia vender flores e se chamaria Isadora, como a menina da novela. Seria feliz.

Publicado originalmente no Arquivo de Memórias

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O menino que pinta as árvores de vermelho

Esta história aconteceu com meu sobrinho Pedro, de 6 anos:

Sua mãe foi chamada à escola para falar com a professora porque Pedro estava desafiando-a. O caso é que ele se recusava a pintar árvores de verde e quanto mais a professora brigava, mais rubra a vegetação ia ficando. O argumento da professora? “Não existem árvores vermelhas, árvores são verdes!” e Pedro continuava desfilando seus escarlates na paisagem. Minha cunhada acabou desprezando a professora, somente falou que estiveram em Minas e foram à uma fazenda cujo a vegetação estava toda vermelha devido a época e Pedro ficou maravilhado com os tons. No ano que vem, provavelmente Pedro estará em outra escola onda possa pintar flores nas cores que quiser, bem como céus alaranjados e amarelos, nuvens esverdeadas e mares multicores, porque ele sabe que a vida é diversa e de muitas variedades e simplesmente aceita e admira-se com isso.

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Madruguei com Noel Rosa

Domingo 6 da manhã, não aguentando mais ficar na cama, me pus de pé e enquanto vestia uma roupa para ir até a padaria percebi um som alto. Parecia um chorinho depois identifiquei que era o samba ‘Com que roupa’ numa gravação bem antiga. Normalmente vizinhos com som alto a esse horário me deixam ‘prostituto’ da vida, porem nesse caso sorri.

A caminho da padaria desviei para ver de onde vinha o som. Duas ou tres casas ao lado da minha, um senhor cuidava do jardim enquanto se deliciava com seus 78 rpm nas alturas. Cumprimentei-o e ele perguntou se o som estava incomodando. Disse que não e que continuasse musicando essa manha cinza e fria com seu repertório.

É preciso evoluir, sim, o futuro é pra frente! Mas não podemos esquecer a educação, o bom senso e os bons modos que o passado ensinou. A vida fica muito mais elegante.

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